segunda-feira, 30 de março de 2026

Últimas leituras: dose tripla de Freida McFadden

O mundo literário de Freida McFadden é um daqueles dos quais é muito difícil sair. A fluidez da sua escrita e a dinâmica dos seus enredos despertam-nos a curiosidade de tal maneira que chegando ao clímax das suas histórias é impossível colocar os livros de lado. Por esta altura do campeonato, não posso negar que não estou a conseguir parar de ler os seus livros. Posso nem saber ao certo se aquela fotografia dela com óculos e cabelo curto e franja é verdadeira e se aquela é realmente a sua aparência, mas sei uma coisa: os seus livros são viciantes. Ainda que não tenham grandes semelhanças na escrita, tenho de referir que a última vez que me senti tão agarrada a uma escritora foi com Agatha Christie. Adoro enredos que me levam a suspeitar de tudo e todos e que no final me surpreendem e isso é algo que ambas estas escritoras me conseguem entregar, ainda que tão distintas e separadas por décadas.

As minhas últimas leituras de Freida McFadden.

Dito isto, escusado é dizer que não tenho lido outra coisa - mas prometo que a seguir vou fazer uma pausa nas leituras de McFadden! E no último Natal recebi três livros da escritora: A Mulher no Andar de Cima, Um por Um e A Intrusa.

Vou começar pelo que decidi ler primeiro: A Mulher no Andar de Cima. A história apresenta-nos Sylvia, uma jovem que vai a uma entrevista de emprego e acaba por ser contratada, por acaso, para um outro trabalho por um homem elegante chamado Adam, que procura uma “companhia” para a sua esposa, que ficou incapacitada depois de um grave acidente doméstico. Parece um trabalho simples e a protagonista, claro, decide aceitar o que lhe é proposto e muda-se para a casa do novo patrão, no meio de nenhures.

Voltamos a ter as fórmulas típicas de McFadden: a procura desesperada por um emprego, os dramas do passado, os meros acasos da vida e os homens charmosos, aos quais as nossas protagonistas nunca conseguem resistir. Uma coisa é também certa: nestes livros sabemos sempre que as coisas nunca são o que parecem e que tudo pode correr mal, a qualquer momento. Não se pode acreditar em ninguém, ao contrário do que pensa a (quase sempre) ingénua protagonista.

A Mulher no Andar de Cima soou-me, em muitos momentos, idêntico a A Criada, mas tem um fator a seu favor: a personagem Victoria, que é a antagonista misteriosa, que conhecemos apenas através de um diário. Estas viagens no seu passado são quase ou tão interessantes como o presente. Levam-nos a viajar pela sua vida antes do casamento e despertam no leitor a dúvida sobre a sua lucidez, em paralelo com o que nos é descrito pela protagonista. A leitura é, como sempre, leve e fluída. Algo que me agrada imenso nestes livros são os capítulos curtos, que dão sempre vontade de ler “só mais um”. É mais uma excelente publicação de Freida McFadden. 

Não posso deixar também de referir algo curioso: quando comecei a ler o livro, encontrei muitas semelhanças com The Only One Left de Riley Sager, um livro que, por acaso, tinha visto que a autora tinha lido no Goodreads. Entre os dois, prefiro o livro de Sager, mesmo tendo sido lançado mais tarde. São muito parecidos na história, mas o de Riley Sager traz ainda mais suspense, pelo que não posso deixar de o recomendar - especialmente para quem gostar de um tom mais ao estilo Vitoriano e Gótico.

Passemos ao seguinte: Um por Um, cuja história acompanha um grupo de amigos naquele que seria um retiro de sonho no meio da natureza. Somos apresentados à protagonista Claire e ao seu marido Noah, num casamento já há muito arruinado por poucas representações de amor, traições e desconfianças, sendo que o único motivo pelo qual continuam juntos são os seus filhos. É num ambiente tenso que esta dupla conduz até esta semana de reunião com antigas amizades, que prometia ser tranquila, mas que logo no seu início se transforma num pesadelo, depois de uma avaria do carro que os levava até ao destino. Um problema mecânico faz com que o grupo de amigos fique perdido no meio de uma floresta, onde alguns acontecimentos começam a criar um ambiente de pânico, ansiedade e dúvida.

Este livro leva-nos para um cenário diferente daqueles a que me estava a habituar na Literatura de Freida McFadden. Somos transportados para uma escura e labirintica floresta, onde todos os perigos presentes são apresentados de uma maneira abstrata, com o objetivo de confundir o leitor. Mas será este um thriller psicológico, um livro de terror, sobrenatural? Em determinados momentos, não sabemos se o vilão é humano, animal ou sobrenatural. À medida que vamos avançando na narrativa, percebemos que McFadden conseguiu enganar-nos novamente e temos o típico e esperado plot twist.

É mais uma leitura fluída, mas tenho de admitir: até ao momento, foi o livro de McFadden que, na minha opinião, apresentou as piores personagens. Achei a protagonista Claire muito fútil e uma típica dumb character. Ou seja, a determinado momento não estava propriamente a torcer por ela. Pessoalmente, gostei mais da personagem do marido Noah, que a mesma descreve tão negativamente. Na verdade, não gostei de nenhuma personalidade dentro do grupo dos amigos, pelo que alguns momentos “chocantes” não me surpreenderam assim tanto.

Retomando a minha comparação no início desta publicação, não posso é deixar de referir que, desta vez, encontrei semelhanças com o livro As Dez Figuras Negras de Agatha Christie. Já o li há muitos anos, mas em vários momentos pareceu-me ter havido uma forte inspiração...

Passemos agora ao terceiro livro sobre o qual quero falar: A Intrusa. Neste somos apresentados a duas personagens: Cassie, uma ex-professora que vive numa casa isolada que está prestes a ser afetada por uma grande tempestade, e Eleanor, uma rapariga que aparece nessa mesma casa coberta de sangue. De acordo com a editora Alma dos Livros, partimos da seguinte premissa:

O passado encontra sempre forma de regressar.

E é a partir deste lema que decorre a narrativa, com capítulos alternados entre o ponto de vista de Cassie e de Ella, entre presente e passado. Ora acompanhamos o medo da destruição da casa da ex-professora e do seu receio de abrigar uma estranha com aspeto suspeito, ora voltamos aos tempos de pré-adolescência de Ella e conhecemos aquele que foi o seu primeiro amigo e que poderia ter sido o seu primeiro amor, não lhe tivesse a sua rebeldia pregado uma grande partida.

Surpreende-me que este livro tenha apenas uma classificação de 3.88/5 no Goodreads. Admito que ao início não me estava a agarrar tão depressa, por apresentar também uma visão mais infantil quando temos o ponto de vista de Ella. No entanto, à medida que a narrativa vai avançando, as dúvidas começam a apoderar-se do leitor e não sabemos novamente em quem confiar. São descritos possíveis momentos de vingança, não sendo inicialmente explícito a quem se direcionam, o que provoca no leitor uma maior vontade de continuar a ler até se perceber realmente o que está a acontecer.

Neste livro é apresentada uma personagem um pouco distinta e que me intrigou desde início: uma acumuladora compulsiva. Todo o caos que esta gera é perfeitamente descrito, de modo a conseguirmos sentir-nos como as personagens à sua volta e apelando aos nossos sentidos. Ficamos com o olfato apurado só de ler algumas descrições e imaginamo-nos em locais claustrofóbicos, rodeados de lixo e tralhas.

Este livro a determinado momento também dá a uma reviravolta e, admito, apanhou-me desprevenida. Pensei que fui enganada o tempo todo. E ainda que não seja a melhor leitura do mundo e muito menos um livro perfeito, é um entretenimento muito bom e este não posso deixar de recomendar!

Quem escreveu isto?

Um grilo falante, que gosta de ler livros, escrever cartas, colecionar figuras e outras tralhas. Cinéfila assídua, apaixonada por viajar, seja em filmes ou, especialmente, no mundo real.

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