No primeiro ano do meu Mestrado, foi-me apresentada uma ideia que nunca mais esqueci: a possibilidade de união entre Star Wars e Tarantino. Tudo isto, apresentado por um autor chamado Henry Jenkins, que escreveu um breve ensaio: Quentin Tarantino’s Star Wars?: Digital Cinema, Media Convergence, and Participatory Culture (2003). E, aproveitando este dia 4 de Maio, em que se celebra o poder da Força (May the 4th be with you!), decidi escrever um pouco sobre isto, indo também buscar uma reflexão feita por mim em 2018, sobre esse mesmo ensaio.
O texto de Henry Jenkins foca-se na temática da apropriação de imagens e de ideias, neste caso na apropriação de vários elementos relacionados com Star Wars, por parte de pessoas criadoras de conteúdo amador – como filmes (amateur digital cinema), imagens ou histórias (fanfics). Jenkins apresentou o conceito de convergência mediática como sendo uma nova estratégia de criação de conteúdo e de distribuição (especialmente na Internet). Realçando que o texto já pode soar ultrapassado, no caso de Star Wars, dá, como exemplo, a possibilidade de depois de vermos um filme comprarmos a banda sonora online (algo que já não se faz tanto hoje em dia) ou irmos a uma loja comprar action figures das personagens.
Depois de expor este conceito de convergência mediática, Jenkins mostra as formas como a Lucasfilm, na altura detentora dos direitos de Star Wars (sendo agora tudo da Disney), determinou como o franchise podia ser adaptado pelos fãs, que participavam assim na ampliação deste universo (através de um participatory culture), recorrendo à utilização de elementos que eram facilmente acessíveis. O autor exemplifica que a própria produtora incentivou os fãs a criarem conteúdos, através de concursos (por exemplo, as competições da AtomFilms em 2003). No entanto, a Lucasfilm revelou ser contra criações que mostrassem conteúdo ofensivo (filmes eróticos, por exemplo), sem relação com as histórias apresentadas por George Lucas. Assim sendo, a Lucasfilm mostrou ser a favor das criações amadoras que fizessem um “fair use” e respeitassem os direitos de autor e as histórias originais.
O texto mostra que se tornou cada vez mais fácil criar um filme, seja com uma câmara ou até mesmo com o nosso telemóvel (mais em conformidade com a nossa atualidade). Para além disso, também não é difícil criar grandes efeitos; basta usar programas de computador (ou agora até mesmo A.I.) e um filme de low-budget consegue ter efeitos quase tão bons como os filmes de Star Wars criados por profissionais. Num passado não muito distante, as action figures serviram muitas vezes de personagens, assim como os Lego serviram para montar cenários. Com as figuras, os fãs podiam tornar a sua imaginação real, atribuindo histórias às personagens dos filmes. Por exemplo, Boba Fett teve um papel pequeno, mas com as suas action figures os fãs davam-lhe objetivos e exploravam a sua personalidade. Muitas vezes, as action figures levaram à criação de filmes, entre eles Toy Wars, um remake de Star Wars: A New Hope e também a curta-metragem que deu nome ao artigo de Jenkins, Quentin Tarantino’s Star Wars, que deixarei no final desta publicação. Para além disso, os fãs faziam também crossovers, como é mostrado pelo autor ao dar o exemplo de uma curta-metragem em que a princesa Leia e a protagonista de Tomb Raider, Lara Croft, enfrentam juntas um grupo de Stormtroopers. A criação de crossovers é também uma prática recorrente nas fanfics, também elas resultado de uma apropriação de personagens e histórias.
Apesar de este texto ser de 2003, Jenkins faz muitas afirmações que podemos trazer para os dias de hoje e podemos refletir acerca do modo como as apropriações de Star Wars ainda são frequentemente feitas, quer de maneira legal como ilegal. Muitos filmes, como por exemplo Fanboys (2009), usaram Star Wars para atrair as pessoas, neste caso criando um cartaz com o capacete de Darth Vader. Outros filmes, como Toy Story 2 (1999), Paul (2011) ou Wonder (2017), adaptaram as histórias da Lucasfilm ou usaram personagens da saga. Toy Story 2 chegou mesmo a ter um final idêntico a um dos filmes de Star Wars, numa altura em que a Lucasfilm ainda não tinha sido comprada pela Disney.
No que toca a vídeos criados com telemóvel, esta tática de filmagem “barata” deixou de ser apenas vista como cinema amador. Atualmente, muitos realizadores profissionais, como é o caso de Steven Soderberg ou Sean Baker, recorrem aos telemóveis para filmar os seus filmes - ex.: Unsane (2018) e Tangerine (2015). Para além disso, temos mesmo casos de filmes que eram apenas amadores mas que acabaram por se tornar grandes sucessos – The Blair With Project (1999).
No nosso presente, existe também uma maior liberdade e facilidade para partilhar conteúdo, portanto qualquer um consegue criar um filme e partilhá-lo online. Neste sentido o texto de Jenkins torna-se apenas um pouco desatualizado na medida em que, por exemplo, certamente será possível encontrar conteúdo menos apropriado de Star Wars online e aposto que nem o Jabba escapa a isso! Afinal de contas, estamos a falar de uma das maiores sagas de sempre.
Como o prometido é devido, segue agora o pequeno vídeo que levou a este texto:
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